O último causo do seu Odílio

Entre estradas de areia, pequis, carrinhos de buriti, a velha Bica e as conversas de antigamente, a memória de Seu Odílio atravessa o tempo e revela um homem que ajudou a abrir caminhos no interior de Goiás. Entre causos, amizades, dificuldades e partidas, uma história marcada pelo alegria, pela simplicidade e pela saudade de um tempo em que as pessoas estavam mais próximas.

O último causo do seu Odílio

Tem gente que passa pela vida sem deixar muita coisa.

Seu Odílio deixou estrada.

E talvez nem soubesse que, muitos anos depois de sua partida, ainda haveria gente passando por aqueles caminhos sem imaginar que, um dia, um homem alto, moreno, de conversa fácil e disposição para o trabalho ajudara a abrir passagem onde antes havia cerrado, areia, mato e muita vontade de chegar.

Eu me lembro dele.

E talvez me lembre ainda mais porque diziam que eu tinha alguma semelhança com ele.

O jeito.

A altura.

A cor da pele.

A maneira de olhar.

Não sei se era verdade.

Mas gosto de acreditar que alguma coisa ficou.

Naquele tempo, Damianópolis era outra.

Para alguns, ainda era Catarina.

Era uma cidade pequena, de ruas tranquilas, de casas de adobes, de casas conhecidas e de gente que sabia da vida dos outros antes mesmo de os outros saberem.

Não havia internet.


Telefone?

Telefone praticamente não fazia parte daquela vida.

Antes disso, se alguém quisesse falar com um parente que morava longe, não apertava botão.

Mandava recado.

Se o assunto fosse importante, mandava alguém.

Se fosse urgente, alguém pegava a estrada.

E se fosse assunto de família...

Bom...

Nesse caso, não precisava nem mandar recado.

Sempre aparecia alguém que já sabia.

Notícia corria mais depressa que qualquer telefone.

E talvez fosse por isso que todo mundo se conhecesse tanto.

Quem morava em Damianópolis sabia quem estava indo para Alvorada do Norte.

Quem tinha parente em Goiânia sabia quando alguém tinha viajado.

Quem tinha filho em Brasília esperava notícia.

E quem não tinha nada para fazer sempre tinha alguma notícia para dar.

Naquele tempo, para saber da vida dos outros, não precisava de internet.

Bastava sentar na porta.

E Seu Odílio conhecia quase todo mundo.

Era professor do antigo MOBRAL.

Tinha aquela paciência de quem sabia que ensinar alguém a ler não era apenas juntar letras.

Era abrir uma porteira.

Entre seus alunos estava Seu Marcelino.

E foi assim que os dois acabaram ficando amigos.

Seu Odílio ensinava as letras.

Marcelino, por sua vez, ensinava a Seu Odílio uma coisa que não estava em cartilha nenhuma:

a arte de contrariar um amigo sem perder a amizade.

Certa vez, Marcelino disse:

— Odílio, ocê foi meu professor.

— Fui.

— Então ocê devia ter me ensinado mais.

— O que foi que eu não ensinei?

Marcelino pensou um pouco.

— A ficar calado.

Seu Odílio soltou uma risada.

— Isso eu também não aprendi.

E assunto encerrado.

Ou melhor...

Assunto começado.

Porque com aqueles dois conversa nunca acabava.

Seu Odílio trabalhou muito.

Foi dono do Armazém Batista.

Tinha um Jeep.

Tinha uma Rural.

Naquele tempo, quem tinha dois veículos já parecia dono de uma pequena frota.

Marcelino gostava de provocar:

— Odílio, ocê tem mais carro que prefeito.

Seu Odílio respondia:

— Tenho é mais problema.

— Mas ocê tem dois!

— E ocê acha que carro velho anda sozinho?

Marcelino coçava o queixo.

— Não.

— Então pronto.

E realmente não andava.

Mas o Jeep e a Rural conheciam as estradas como poucos.

Ou melhor: conheciam aquilo que se podia chamar de estrada.

Porque, em certas épocas, o caminho para o Pé da Serra, onde ficavam as propriedades rurais dos Gerais, era feito mais de coragem que de chão.

Quando a areia tomava conta daquelas bandas, carro atolava.

Ônibus parava.

Caminhão patinava.

E motorista aprendia a fazer preces.

Quando chovia, a coisa piorava.

Havia dias em que chegar a Alvorada do Norte parecia uma viagem para outro Estado.

E Brasília, então...

Brasília parecia outro mundo.

Quem precisava seguir para lá sabia que não bastava ter dinheiro para a passagem.

Era preciso saber se o ônibus conseguiria chegar.

Seu Odílio dizia:

— Se chover antes da gente sair, ocê vai de ônibus. Se chover depois que sair, ocê vai de fé.

E Seu Marcelino completava:

— E se chover no meio do caminho?

— Aí ocê vai ter que interceder dobrado.

Era desse jeito.

Riam porque, naquele tempo, rir também era uma forma de enfrentar dificuldade.

Era assim.

Seu Odílio tinha resposta para quase tudo.

E quando não tinha, inventava.

Talvez por isso gostasse tanto de contar causos.

Seu Odílio conhecia o caminho do Pé da Serra como conhecia a palma da própria mão.

Foi ele quem ajudou a construir a estrada que ligava Damianópolis àquela região dos Gerais.

Não foi obra de máquina moderna.

Não teve placa de inauguração.

Não teve fotografia bonita para pendurar em gabinete.

Foi trabalho de homem.

Terra, braço, ferramenta, sol e insistência.

A estrada foi aparecendo.

Primeiro um caminho.

Depois outro.

Uma curva aqui.

Uma passagem ali.

E, aos poucos, o que antes parecia distante foi ficando perto.

Seu Odílio gostava de dizer que tinha feito uma estrada.

Seu Marcelino corrigia:

— Ocê fez foi um caminho.

— Estrada.

— Caminho.

— Estrada.

— Caminho.

— Marcelino...

— Que foi?

— Se ocê continuar falando que é caminho, eu faço outra estrada e deixo ocê sem passagem.

Marcelino não se intimidava.

— Pois faça.

— Faço mesmo.

— Mas essa continua sendo caminho.

Seu Odílio balançava a cabeça.

— Ocê é teimoso, ocê não aprende.

Marcelino respondia:

— Aprendi.

— O quê?

— A contrariar ocê.

E os dois caíam na risada.

Talvez nenhum dos dois estivesse completamente certo.

Talvez estrada seja justamente isso:

um caminho que muita gente aprende a chamar de seu.


Mas estrada não era a única coisa que fazia parte daquele mundo.

Havia o cerrado.

Havia o pequi.

Havia o buriti.

Havia o Rio Grotão.

Havia o Rio Vermelho.

Havia a Bica.

E havia uma vida que parecia ter mais tempo.

O pequi estava na mesa.

Na cozinha.

No quintal.

No caminho.

Seu cheiro anunciava que alguma coisa estava acontecendo.

Quem cresceu naquele lugar aprendeu cedo que pequi não era simplesmente fruto.

Era parte da vida.

Damianópolis e Mambaí carregavam aquela fama de terra de pequi, e quem cresceu por ali sabia que o cerrado também tinha seus presentes.

Mas criança não queria saber de filosofia.

Queria brincar.

E brinquedo, quando não vinha da loja, vinha do que a terra oferecia.

O buriti, por exemplo, servia para muita coisa.

Com um pedaço daqui, outro dali, aparecia um carrinho.

Não era bonito.

Não tinha motor.

Não tinha buzina.

Não tinha controle remoto.

Mas tinha uma coisa que nenhum brinquedo moderno consegue fabricar:

imaginação.

Os meninos puxavam os carrinhos pela terra.

Corriam.

Disputavam corrida.

Caíam.

Levantavam.

E continuavam.

Os mais afortunados podiam ganhar um carrinho de presente.

Alguns ainda recebiam daqueles que vinham por meio do governo do Estado.

Quem ganhava era quase rei.

Quem não ganhava inventava um.

E talvez se divertisse mais.

Seu Odílio olhava os meninos brincando e dizia:

— Hoje o menino quer tudo pronto.

Marcelino perguntava:

— E ocê, no seu tempo?

— Eu fabricava a diversão.

— Porque não tinha dinheiro.

Seu Odílio ajeitava o chapéu.

— Não.

— Não?

— Porque eu era criativo.

Marcelino começava a rir.

— Criativo é uma palavra bonita pra pobre.

Seu Odílio olhava sério para ele.

— E pobre é uma palavra feia pra criativo.

Os dois riam.

Mas o tempo não espera ninguém.

As crianças cresceram.

E começaram a olhar para longe.

Primeiro Alvorada do Norte.

Depois Brasília.

Depois Goiânia.

A vida chamava.

Uns iam estudar.

Outros iam trabalhar.

Outros simplesmente queriam tentar.

E foram.

Outros simplesmente porque entendiam que ali já não havia espaço para o sonho que carregavam.

Iam embora levando pouca coisa.

Uma mala.

Uma fotografia.

Uma lembrança.

E o jeito de falar.

Seu Odílio via aquilo tudo.

Não gostava.

Mas entendia.

Sabia que ninguém podia obrigar um filho a ficar onde o mundo já não cabia dentro dos seus planos.

Talvez por isso gostasse tanto de estrada.

E talvez tenha compreendido uma coisa que só quem  conhece estrada consegue compreender, que ela serve para ir, mas também serve para voltar.

Seu Odílio tinha um cachorro chamado Javali.

Era um cachorro danado..

Vira-latas branco e preto.

Sem raça definida.

Sem pedigree.

Sem documento.

Mas com personalidade suficiente para mandar em muita gente.

Não respeitava galinha.

Não respeitava visita.

E, segundo Marcelino, às vezes nem respeitava o próprio dono.

— Esse cachorro é mais dono da casa que ocê.

Seu Odílio respondia:

— É porque ele trabalha mais.

— Trabalha em quê?

— Late.

— Isso eu também sei fazer.

— Mas ocê não espanta ninguém.

Javali ficava olhando.

Marcelino apontava:

— Tá vendo? Até ele sabe que eu tô certo.

Seu Odílio respondia:

— Ele tá é esperando eu mandar ocê embora.

Ninguém sabia se concordava com um ou com outro.

Talvez só estivesse esperando comida.

Javali parecia entender a conversa.

Quando Marcelino falava mal dele, abanava o rabo.

Talvez por saber que, no fundo, era querido.

Seu Odílio também tinha Estrela.

Uma vaca conhecida.

E tinha Trovão.

Não se sabe se o nome foi escolhido pela força do animal ou pela quantidade de barulho que fazia quando se aproximava do curral.

Seu Odílio dizia que Trovão era manso.

O nome já causava certa desconfiança em Marcelino.

Seu Odílio dizia:

— Trovão é manso.

Marcelino perguntava:

— Então põe a mão nele.

— Não precisa.

— Ué. Ocê não disse que é manso?

— Eu sei.

— Então põe.

Seu Odílio olhava para Trovão.

Depois para Marcelino.

— Uma coisa é o bicho ser manso.

— E outra?

— Outra é eu ser besta.

Marcelino começava a rir.

— Agora ocê falou bonito.

Havia também a Bica.

E talvez nenhuma lembrança daquela época seja completa sem ela.

Ali as mulheres se reuniam para lavar roupas e vasilhas.

As crianças aproveitavam para tomar banho.

E, enquanto uma trabalhava, outra conversava.

A água corria.

As crianças gritavam.

As mulheres riam.

E a vida parecia ter tempo.

Hoje, talvez pareça estranho pensar nisso.

Mas naquele tempo, a Bica era quase uma sala de visitas sem parede.

Quem chegava encontrava gente.

Quem ficava encontrava conversa.

Quem ia embora levava notícia.

Seu Odílio gostava de passar por ali.

Não porque tivesse roupa para lavar.

Embora Marcelino dissesse que ele precisava aprender.

— Homem que sabe lavar uma camisa não passa aperto.

— Eu sei.

— Sabe?

— Sei.

— Então lava a sua.

— Eu sei lavar. Só não gosto.

— Ah, bom.

E a bica continuava sendo um lugar predilleto para Seu Odílio.

Marcelino dizia que ele gostava mesmo era de conversa.

Seu Odílio negava:

— Eu vou lá só olhar a água.

— Sei.

— É verdade.

— Então por que ocê fica duas horas?

Seu Odílio pensava.

— A água demora para passar.

Marcelino ria.

E assim os anos foram passando.

Damianópolis foi mudando.

As crianças cresceram.

Os jovens partiram.

Alguns voltaram.

Outros não.

Os velhos foram ficando.

Depois foram partindo também.

Seu Odílio envelheceu.

Marcelino envelheceu.

Javali envelheceu.

Estrela envelheceu.

Trovão envelheceu.


Um dia, muitos anos depois, Seu Odílio voltou à estrada do Pé da Serra.

Foi sozinho.

Já não tinha a mesma força.

O Jeep havia ficado para trás.

A Rural também.

O Armazém Batista já pertencia ao passado.

Muitas das pessoas queridas estavam longe.

E outros espalhados por caminhos que ele talvez nem conhecesse direito.

Levava apenas o velho chapéu e a companhia de Javali.

Parou no meio da estrada.

Olhou para trás.

Damianópolis estava longe.

Olhou para frente.

O Pé da Serra estava adiante.

E ficou pensando.

Quantas pessoas haviam passado por aquele caminho?

Quantas histórias?

Quantas despedidas?

Quantas chegadas?

Quantas crianças que um dia correram atrás de carrinhos de buriti agora dirigiam carros pelas avenidas de Brasília?

Quantas mulheres que lavaram roupa na Bica agora estavam longe?

Quantos homens que conversaram debaixo das árvores já não estavam mais ali?

Seu Odílio sentou-se à beira da estrada.

Javali deitou ao lado.

— Tá ficando pouca gente, Javali.

O cachorro levantou a cabeça.

— Marcelino já foi.

Silêncio.

— A Bica ficou mais quieta.

Silêncio.

— Os menino cresceram.

Javali continuou olhando.

Seu Odílio sorriu.

— Ocê também tá velho, seu peste.

Javali abanou o rabo.

— Eu também.

E os dois ficaram ali.

Sem pressa.

E aquilo que parecia que nunca acabaria começou, pouco a pouco, a virar lembrança.

Seu Odílio nos deixou.

Depois dele, os filhos seguiram seus caminhos.

A família, que durante algum tempo parecia caber dentro da mesma paisagem, foi se espalhando.

Seu Odílio viu muita gente partir.


Ele teve filhos de três mulheres diferentes.

A vida, que nunca foi muito obediente aos planos dos homens, construiu sua família de um jeito próprio.

Durante muitos anos, a casa, o armazém, o trabalho e os encontros faziam parecer que todos estavam mais próximos.

Mas depois de sua partida, aconteceu aquilo que talvez ele menos desejasse.

Os filhos se separaram.

Cada um tomou seu rumo.

A família, que antes parecia caber numa mesma lembrança, foi se espalhando pelo mapa.

Um para um lado.

Outro para outro.

E a estrada que Seu Odílio havia construído para aproximar o Pé da Serra de Damianópolis acabou testemunhando justamente aquilo que acontece com quase toda família:

o tempo passa.

Os filhos crescem.

As casas mudam.

Os caminhos se multiplicam.

E chega um dia em que já não é possível reunir todo mundo no mesmo lugar.

E a estrada que ele ajudara a abrir continuou ali.

Talvez sem saber que carregava uma parte da história daquele homem.

Passaram-se os anos.

O mundo mudou.

Chegaram outras estradas.

Outros carros.

Telefones.

Depois vieram coisas que ninguém naquela época imaginaria.

Mas a memória continuou guardada.

O Pé da Serra continuou.

O Boqueirão continuou.

Os Gerais continuaram.

O Rio Grotão continuou levando suas águas.

O Rio Vermelho continuou seguindo seu curso.

O pequi continuou nascendo.

A Bica continuou sendo lembrada.

E a estrada continuou.

Só que o tempo levou muita coisa.

Levou os carrinhos de buriti.

Levou algumas conversas.

Levou algumas vozes.

Levou Seu Marcelino.

Levou Javali.

Levou Estrela.

Levou Trovão.

Levou Seu Odílio.

Mas não levou a estrada.

Porque estrada de terra pode ser coberta pela areia.

Pode ser castigada pela chuva.

Pode ficar quase intransitável.

Pode até desaparecer.

Mas basta alguém passar novamente para lembrar que ela esteve ali.

Talvez seja assim também com a memória.

Ela fica escondida debaixo da poeira do tempo.

Até que alguém passa por ela.

E lembra.

Eu me lembro de Seu Odílio.

E quando penso nele, não penso apenas no homem que foi professor do MOBRAL.

Nem no dono da Mercearia e Armazém Batista.

Nem no homem que tinha um Jeep e uma Rural.

Penso no homem que ajudou a abrir uma estrada.

Penso na Bica.

Penso nos meninos com seus carrinhos de buriti.

Penso no cheiro do pequi.

Penso nas estradas cobertas de areia.

Penso nos ônibus que, quando a chuva apertava, não conseguiam chegar.

Penso nas pessoas que partiram para Brasília e Goiânia procurando uma vida melhor.

E penso nos que ficaram.

Porque talvez Seu Odílio tenha entendido uma coisa que só se aprende quando o tempo passa:

a gente passa a vida inteira abrindo caminhos para os outros.

Alguns ficam.

Outros partem.

E quase todos, um dia, acabam sentindo saudade do lugar de onde começaram.

Dizem que Seu Odílio gostava de contar causos.

Talvez esse seja o último.

Mas, se alguém perguntar se tudo aconteceu exatamente assim, eu não sei responder.

Seu Marcelino provavelmente diria que não.

E, se pudesse ouvir, talvez aparecesse de algum canto da velha Bica e gritasse:

— Odílio, ocê tá aumentando a história de novo!

E Seu Odílio, com aquele jeito de quem nunca tinha pressa para terminar uma conversa, provavelmente responderia:

— Uai, Marcelino...

— Que foi?

— Se eu não aumentar, quem é que vai querer ouvir?

E os dois cairiam na risada.

Como antigamente.

Como quando a estrada ainda era de areia.

Como quando a Bica tinha criança.

Como quando o pequi perfumava o cerrado.

Como quando Damianópolis parecia pequena demais para caber tanta vida.

E talvez seja justamente por isso que certas histórias não morrem.

Porque enquanto alguém lembrar delas,

Seu Odílio ainda estará sentado na beira da estrada, contando mais um causo.

Por Renato Feitosa da Silva