Mais um Severino, de volta ao sertão

Em um conto marcado pela seca, pela pobreza e pela saudade, Nivaldo Falcão narra a trajetória de Severino, um sertanejo que retorna para casa depois de enfrentar as dificuldades da cidade e descobrir que, apesar de voltar sem riquezas, ainda carrega consigo aquilo que o dinheiro não pode comprar: a família, suas raízes e o sentimento de pertencimento.

Mais um Severino, de volta ao sertão

Expulso da cidade pela vida, pela fome, pelas portas que se fechavam e pelos sonhos que nunca encontraram morada, Severino fazia o caminho de volta para o sertão.

Sentado numa pedra do meu mundo anatômico, debaixo de um pé de juá entre a quietude do tempo e a pressa dos pensamentos, eu contemplava a largueza do mundo.

Foi quando avistei, lá longe, depois do riacho seco de pedras de amolar, a figura de mais um viandante, solidário, sertanejo renegado pela sorte, que voltava para o sertão.

Atrás, com o andar meio tropego, cambaleando preguiçosamente, sua cadela Biana, sua única companheira de volta para casa.

Vinha no meio daquela poeira suspensa pela falta de vento no meio daquele sol escaldante, a figura de um homem, que mais parecia um trapo humano, caminhando devagar. Muito devagar.
Cada passo parecia carregar uma história e uma saudade.

As alpercatas de couro cru batiam contra a terra seca: Chá-lape... chá-lape... Levantando pequenas nuvens de poeira, como se o próprio sertão estivesse anunciando o retorno de um filho que a muito tinha partido.

Nas costas uma vara com uma trouxa empoeirada. Na mão, uma corda emendada. Na outra ponta, Biana.
A cadelinha, magra e cansada, seguindo seu dono. Filha de Cogumelo, cachorro vadio, desses que nascem sem dono e vivem perambulando pelas ruas sem destino, Cogumelo havia morrido um dia antes, vítima da picada de uma cobra rabo-de-cipó, ao pé de um cupinzeiro, talvez na esperança de marcar seu território.

Agora, Biana seguia Severino.Talvez porque cachorro também saiba reconhecer a tristeza de um pobre retirante.Talvez porque, naquele mundo de abandonos, os dois tivessem encontrado um no outro a única companhia possível.

E lá vinha Severino. Mais um Severino sem nome, sem riqueza, sem documento que dissesse quem era.

Filho de uma mulher catingueira. Filho daquela terra. Filho da seca. Filho da esperança.
Que um dia, partira levando apenas um embornal, meia banda de rapadura e um punhado de farinha, atrás de dias melhores.

Mariazinha ficara.
Ficara chorando.
Ficara esperando.
Ficara com os filhos.
Ficara com a pequena casa de pau a pique.
Ficara com a saudade.

E o tempo passou.
Até que, naquela tarde, Mariazinha olhou para o horizonte e viu a poeira.
Primeiro, pensou que fosse somente a poeira da brisa quente na curva da estrada.

Apurou as silhuetas, parou, e olhou novamente.
O coração reconheceu antes dos olhos. Era ele.
Severino estava
voltando.Mariazinha não perguntou o que ele trazia.Não quis saber o havia conseguido. Não quis saber por que voltava maltrapilho. Apenas correu. 

E atrás dela vieram os filhinhos. Correram como crianças correm quando a esperança, depois de muito tempo, resolve voltar para casa.

Severino reconheceu Mariazinha, largou a corda. A cadela Biana parou como se quisesse entender o que estava acontecendo.

E aquele homem, que enfrentara a cidade, a fome, o abandono e a vergonha da derrota, caiu de joelhos diante dos filhos. Abraçou-os.
Um por um. E chorou.

Foi nesse momento que a sua dor doeu mais forte. Aquelas crianças tinham olhos grandes demais para os rostos pequenos. A pele fina deixava aparecer as costelas. As barrigas inchadas denunciavam a fome,  talvez a própria miséria ou cheia de vermes.

E Severino chorava porque sabia que havia partido para lhes dar uma vida melhor. E voltava trazendo apenas a si mesmo.

Não havia dinheiro.
Não havia presente.
Não havia pão. Havia apenas um homem cansado, uma cachorrinha magra e uma saudade que não cabia dentro do peito.

A barba crescida.
Cabelos desalinhados.
As roupas rotas, envelhecida pelo tempo.
O sol castigando-lhe os olhos. E a miragem dançando diante de sua visão, confundindo céu e terra. Até o velho mandacaru parecia ter se curvado cansado de florescer. Talvez de tristeza. Talvez de respeito. Porque até a natureza parecia compreender que aquele homem não estava simplesmente voltando para si, ele era parte do lugar.

Foi quando Severino avistou Malhada. A velha vaquinha que seu pai lhe dera no dia do casamento com Mariazinha.

Ainda trazia um laço amarrado no pescoço o mesmo que prendia o chocalho de couro cru.

Mas já não era a mesma.
Ofegava. Cambaleava.
Era quase somente o couro e o osso. Malhada caminhou até a velha cacimba. Severino foi atrás. Ajoelhou-se.
Olhou para dentro. Nada.
Somente o barro cheio de pegadas. A velha cacimba estava seca.

O sertão também tinha envelhecido. Severino passou a mão pelo rosto magro e suado. Talvez naquele momento tenha entendido que não havia água para matar a sua sede. Mas havia algo mais profundo esperando por ele. A família, a casa, a caatinga.

Sentou-se na soleira da velha porta, aquela mesma porta que tantas vezes vira sair o homem cheio de sonhos e que agora recebia de volta um homem de pele curtida quase sem forças. E chorou.

Chorou como choram os homens que passaram tempo demais tentando ser fortes. Depois levantou a cabeça.

Olhou para a casa.
Olhou para Mariazinha.
Olhou para os filhos.
Olhou para cachorrinha Biana. E pensou:

“Que importa se a fome a sede é maior que a seca? Aqui sou gente.”

Naquele instante, a pequena casa de enchimento e pau a pique deixou de parecer pobre. O telhado torto já não importava. As embiras amarrando as paredes e a porta já não envergonhavam mais.
A terra resecada, rachada pela seca já não o assustava mais. Porque dentro daquele rancho havia aquilo que Severino não encontrara na cidade. PERTENCIMENTO.

Ali estava Mariazinha.
Ali estavam seus filhinhos.
Ali estava a memória de seus pais.
Ali estava Malhada mesmo só o couro e o osso.

E agora a cadela Biana.
Tudo o que a vida não conseguira levar. Tudo o que o dinheiro não conseguiu comprar.
Tudo o que a cidade não lhe dera.

Severino havia voltado sem nada. Mas, naquela tarde, descobriu que ainda tinha tudo.

Porque há momentos em que o homem precisa perder o mundo inteiro para descobrir onde realmente é o seu lugar.

E quando a noite começou a cair sobre o sertão, Mariazinha sentou-se ao lado dele.
Não falaram nada.
Não precisavam.
Ela apenas encostou a cabeça em seu ombro.
Severino segurou sua mão. E ficaram em silêncio. Enquanto, ao lado, Biana se ajeitava junto à porta e resonava ao som triste da coã no galho da jurema.

O chocalho de Malhada tocava de vez em quando. E o vento levando as folhas secas passava entre os mandacarus, fazendo  poeira ao longo da estrada. 

Talvez Severino não tivesse vencido a cidade.
Talvez tivesse voltado derrotado. Mas, naquela noite, debaixo daquele céu imenso e estrelado, ele finalmente compreendeu: não era um homem derrotado.
Era apenas um homem que havia encontrado o caminho de volta para casa, para a sua família.
Voltara para os filhinhos.
Voltara para a terra.
Voltara para suas raízes.
E, sobretudo, voltara para o seio da sua amada.


Fraternalmente, Nivaldo Falcão – Formosa-GO, 10 de agosto de 2026.