O “Tempo Novo” envelheceu? A velha estratégia de Marconi diante de uma nova eleição em Goiás

Há eleições que são decididas nas urnas. Outras começam muito antes, no imaginário do eleitor. Em Goiás, poucas campanhas construíram uma narrativa tão forte quanto a de 1998. Naquele ano, Iris Rezende, um dos nomes mais tradicionais da política goiana, entrou na disputa pelo Governo de Goiás como favorito. Do outro lado, Marconi Perillo, então com 34 anos, surgia como representante de uma nova geração.

O “Tempo Novo” envelheceu? A velha estratégia de Marconi diante de uma nova eleição em Goiás
Da primeira eleição ao cenário atual: Marconi Perillo aparece em dois momentos de sua trajetória política — no início do primeiro mandato como governador de Goiás, após a eleição de 1998, e em registro mais recente. Ao lado, Daniel Vilela, atual governador de Goiás e nome que está no centro das articulações para a disputa eleitoral de 2026. Foto: Reprodução/Arquivo

A estratégia era simples e poderosa: transformar a eleição em um confronto entre o passado e o futuro.

Foi nesse contexto que nasceu uma das marcas mais conhecidas da trajetória política de Marconi: o “Tempo Novo”. A campanha explorou a ideia de renovação e utilizou o humor para desconstruir a imagem de Iris. O personagem Nerso da Capitinga, interpretado por Pedro Bismarck, chegou a aparecer com uma panela, numa referência à chamada “panelinha” ligada ao grupo político de Iris. A Justiça Eleitoral chegou a intervir em algumas peças da campanha.

O efeito foi expressivo. Marconi cresceu ao longo da disputa e, no segundo turno, venceu Iris com aproximadamente 53% dos votos contra 47%.

A vitória teve vários fatores, mas o marketing conseguiu transformar a disputa em uma mensagem fácil de entender: “Tempo Novo” contra “panela velha”.

Quase três décadas depois, o cenário é outro.

Marconi, que em 1998 representava a juventude e a renovação, retorna à disputa em 2026 carregando uma longa trajetória política, com mandatos, governos, alianças e uma história amplamente conhecida pelo eleitor.

Do outro lado, Daniel Vilela ocupa hoje um espaço semelhante ao que Marconi ocupava naquela época: o de uma geração mais jovem diante de um nome já consolidado na política estadual.

A fotografia mudou — e isso pode dificultar a repetição da velha estratégia.

Segundo pesquisa Genial/Quaest divulgada no final de agosto, Daniel aparece com 37% das intenções de voto, contra 20% de Marconi e 12% de Wilder Morais. O levantamento também aponta vantagem de Daniel em cenários de segundo turno contra Marconi.

O desafio, portanto, não é simplesmente falar de idade. É falar de percepção de ciclo político.

Em política, “novo” nunca foi apenas uma questão de nascimento. Significa representar mudança de método, linguagem, prioridades e perspectiva.

Em 1998, Marconi precisava convencer o eleitor de que era uma alternativa ao que existia. Em 2026, ele precisa convencer o eleitor de que ainda pode representar uma alternativa, apesar de toda a história que já construiu.

E aí está a ironia.

O político que chegou ao poder dizendo que Goiás precisava de um “Tempo Novo” agora precisa responder a uma pergunta diferente:

Depois de quase três décadas, Marconi ainda consegue convencer o eleitor de que representa o novo?

A história não está necessariamente se repetindo.

Desta vez, talvez o eleitor esteja fazendo outra pergunta: quem realmente representa o futuro de Goiás?

Por Rachel Dourado (jornalista) do Site Confiança Notícias